Detetive felipense revela como resolveu três mil casos de pessoas desaparecidas

Quando, há alguns meses, a reportagem do NOVO fez um primeiro contato com Juca Ferreira, como prefere ser identificado, deu para perceber que ele não estava para brincadeira.

Minutos depois da primeira mensagem trocada através do aplicativo Whatsapp, quando me apresentei como repórter do NOVO, ele ligou checando todos os meus dados.

“Você é Marina de Lima Cardoso, tem 21 anos, nasceu no dia tal e mora nesse endereço aqui, certo?”, disse ele com tom de desconfiança, mas certo das suas informações.

Estavam corretas, respondi. Enquanto explicava o motivo do meu contato e como o havia encontrado, ele continuava a me testar. “Vi aqui que você tem um blog no jornal, é de quê mesmo?”, perguntou esperando que eu acertasse a resposta.

Para mostrar que só estava fazendo meu trabalho, o adicionei como amigo em minha principal rede social. Não tinha nada a esconder, afinal. Com a confiança e todas as informações devidamente esclarecidas, Juca começou a aliviar o papo e parecer bem mais aberto e simpático.

“Desculpa, mas preciso fazer esses testes para me preservar e manter a integridade dos dados que tenho investigado”, esclareceu. Não discordei. Ao longo dos últimos dez anos, ele tem dedicado parte do seu tempo para ajudar pessoas a encontrar desaparecidos.

Apenas em Natal e Região Metropolitana, nos últimos cinco anos, 395 pessoas desapareceram, segundo as estatísticas da Polícia Civil. Quase metade (187) desses casos continua sem solução, como mostrou a reportagem especial publicada no último domingo pelo NOVO.

Um sem número ainda maior de pessoas lotam grupos nas redes sociais em busca de parentes desaparecidos há décadas. Filhos em busca dos pais que os abandonaram na infância, parentes em busca de remanescentes da família em um estado distante, brasileiros adotados por estrangeiros e que buscam sua origem, entre outros.

Muitos anos antes do nosso primeiro contato, quando ainda era criança sem nenhuma ideia do que seria na vida adulta, Juca Ferreira ouvia sua mãe falar do sonho de encontrar o pai dela. Mas, foi só aos 24 anos, em 2005, que a vontade de realizar o sonho da sua genitora o levou a conciliar o trabalho em uma rádio de Mossoró com o de detetive.

“Minha mãe nasceu em Natal e pouco tempo depois meu avô a abandonou. Na época ele tinha 18 anos”, conta. Apenas com a convicção de que realizaria o sonho da mãe, sem nenhuma experiência na arte de encontrar pessoas, Juca usou a recente popularização da internet ao seu favor. Na época, as comunidades de desaparecidos da extinta rede social Orkut serviram de escola para que ele começasse a investigação e encontrasse o avô que há cinquenta anos não se tinham notícia.

Bastaram algumas semanas de investigação para que a primeira pista aparecesse: ele estava no Rio de Janeiro. “Voei para lá, fiz algumas consultas em listas de pessoas com o mesmo nome e tive de identificar qual era o meu avô. Para isso, me disfarcei e passei a conviver com pessoas próximas dele até ter certeza de que era a pessoa certa”, relembra.

Quando Juca resolveu que finalmente era hora de se identificar, o senhor de 72 anos demorou a crer que era verdade. Foi só com as fotografias da época que ele era apenas um adolescente, guardadas pela mãe de Juca, que ele se convenceu e se interessou pela história.

O reencontro da mãe com o pai após cinquenta anos despertou em Juca a vontade de continuar a investigar outros casos. De volta a Mossoró, ele se tornou empresário no ramo de informática e passou a conciliar o seu tempo pesquisando novas técnicas e truques para procurar pessoas.

Atualmente, a maior parte dos seus casos (ele afirma ser mais de três mil ao longo desses dez anos) são voluntários e 90% resolvidos pela internet, sem nenhuma necessidade de deslocamento.

“Aprendi a usar o banco de dados de sites públicos como o TSE, TRE, sites do governo, como o do Bolsa Família, e outros sites particulares e especializados. Entre 2009 e 2011, fiz cursos em Brasília e no Rio Grande do Sul”, conta.

Com a especialização e sucesso em vários casos, o detetive criou a página ‘Desaparecidos do Mapa’ no Facebook. “A partir daí, pessoas do Brasil inteiro e até de outros países, como Portugal, Espanha e Holanda, começaram a me procurar e, felizmente, fui tendo sucesso”, diz sem esconder o orgulho.

Mesmo ao telefone, em uma de nossas conversas para essa reportagem, era possível sentir a alegria na voz de Juca ao contar um dos casos mais marcantes da sua vida de buscas. Uma jovem do Paraná o procurou. Sua mãe havia falecido e ela não tinha parentes próximos. A esperança era encontrar a família do pai, que ela acreditava ter morrido antes mesmo dela nascer. Compadecido com a história, Juca resolveu ir a fundo à busca. Mais de um mês depois do primeiro contato com a jovem, ele não só achou a família do pai como descobriu que ele ainda estava vivo e nem sabia da existência da filha. Com a descoberta e a aceitação do pai, ele fez questão de fazer o encontro pessoalmente.

Sem que a jovem soubesse, uma semana depois, Juca acompanhou o pai até a casa da filha e viu o reencontro emocionante. “São por essas histórias que trabalho”, afirma ao contar porque descarta trabalhos que envolvam criminosos e casos conjugais.

Dificuldades 
Apesar da experiência e dos casos bem sucedidos, Juca Ferreira, como prefere ser identificado pelo NOVO, afirma que a investigação poderia ser mais fácil se os órgãos públicos oferecessem meios eficientes para o cadastro de um desaparecido.

“O site do Cadastro Nacional, além de ser de difícil acesso para quem deseja cadastrar um caso, não é geral. É mais para criança. E está muito desatualizado. Não há nada que nos auxilie na busca, por isso mal olho”.

Conforme explicou reportagem publicada neste domingo no NOVO, o site foi criado em 2010 e tinha a proposta de ser um banco de dados com informações sobre pessoas desaparecidas de todo o país e orientações sobre o assunto, mas a impressão atual é de abandono.

Até a última sexta-feira, o cadastro indicava 370 crianças e adolescentes desaparecidos em 20 estados, mas segundo informações oficiais do governo federal, 250 mil brasileiros somem anualmente, sendo 40 mil apenas crianças e adolescentes.

Profissão detetive
Diferente da visão que muitos têm sobre essa profissão, Juca Ferreira não tem problema de mostrar o rosto, nem vive com uma lupa na mão, um chapéu e um sobretudo equipado.

Apesar disso ele reconhece que ainda existe uma barreira quando ele se apresenta como detetive.

“É bem complicado. Por isso, evito trabalhos na minha região, em Mossoró. Fico mais a vontade com casos de outros estados. Algumas pessoas sentem receio, mas preciso ter responsabilidade em preservar os dados, manter o sigilo e a privacidade. É por isso que sempre faço testes antes de passar qualquer dado para alguém”, revela.

Toda preocupação não é por acaso. Uma vez, uma mulher insistiu em encontrá-lo pessoalmente em um shopping da cidade. Quando ela chegou, Juca já a observava de longe e percebeu que ela estava acompanhada de dois homens, apesar de negar ao telefone. Ao se ver naquela situação ele desistiu do encontro. Pouco tempo depois, ele descobriu que a mulher havia sido pressionada por pessoas que estavam sendo procuradas por Juca, mas que não queriam ser encontradas.

Depois disso, ele prefere não correr riscos e a maior parte dos seus atendimentos é pela internet, através da sua página no Facebook. Quanto à exposição na mídia, essa é a primeira reportagem que conta detalhes da sua vida e trabalho, apesar de já ter sido procurado por algumas emissoras.

Mesmo sem sobreviver desse trabalho, ele é voluntário de várias ONGs que ajudam pessoas a encontrar quem sumiu do mapa, inclusive se colocou a disposição de responder possíveis contatos com a redação do NOVO pelo email pautanj@gmail.com. É desse jeito que aos 35 anos ele afirma ter se encontrado na vida.
Reprodução/Novo Jornal

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