Colunista da Revista VEJA destaca Felipe Guerra

O colunista Dias Lopes da revista VEJA que aborda as curiosidades e novidades da gastronomia universal, publicou na edição de ontem (08), um artigo com o título: A peso de ouro. O jornalista aborda assuntos que envolve o leite de jumenta e cita Felipe Guerra como uma cidade do Brasil a fazer futuramente comercialização de queijo de jumenta.

Confira na Íntegra:

A humanidade faz queijo com leite de vaca, búfala, cabra e ovelha há muitos séculos. Tem sido assim desde o período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, sitiado entre 2 milhões a.C. até 10.000 a.C., quando domesticamos os animais e aprendemos a ordenhá-los.

Pois hoje existe queijo feito com o leite da jumenta, burra ou asna. Promovido à condição de iguaria, junto com o caviar, o foiegras e a trufa branca, o preço do seu quilo no mercado internacional começa em 1.000 euros (o equivalente a três mil e seiscentos reais). Nome do precioso laticínio: Pule Cheese, em português Queijo Pule. Debutou em 2012, na Feira de Turismo de Belgrado, capital da Sérvia.

É feito a 80 quilômetros daquela cidade, na Reserva Natural de Zasavica, uma planície assinalada pela beleza e paz, com 1825 hectares de área fechada, centenas de plantas e animais protegidos, algo afortunado em um país de tantas guerras. Mas o que o Queijo Pule tem de especial? Suas características organolépticas, ou seja, que impressionam os sentidos. A cor é muito branca, a textura granulosa e quebradiça, a maturação reduzida, o sabor salgado. Também não é fácil elaborá-lo.

Os produtores ordenham a jumenta com a mão, tirando pouquíssimo leite. São no máximo 1,3 litros por dia, por cerca de 6 ou 7 meses – uma vaca produz entre 15 e 22 litros no mesmo período. Trata-se de uma diferença enorme. Acrescente-se serem necessários por volta de 10 litros para se fazer um quilo de queijo.

O leite de jumenta tem sido apreciado ao longo dos séculos, especialmente pelas suas virtudes cosméticas e dietéticas. Cleópatra (69-30 a.C.), a rainha Egípcia, tomava demorados banhos de imersão com ele. Acreditava na sua capacidade de conservar o esplendor da pele. Mantinha um rebanho de 700 jumentas só para encher a banheira. Popeia Sabina (30-65 d. C), segunda mulher do imperador romano Nero, imitava Cleópatra, “para eliminar as rugas da pele e conservá-la branca e delicada”.

Quanto às propriedades terapêuticas, o primeiro a descrever as virtudes do leite de jumenta foi o grego Hipócrates (460-370 a. C.), considerado o “pai da Medicina”. Na Roma Antiga, Plínio, o Velho (23-79 d.C.), exaltou seus benefícios para a saúde. No século 20, referendou-se a sabedoria popular, que recomendava “ministrá-lo aos recém-nascidos, quando faltasse o materno”.

O leite de jumenta é o mais parecido com o humano. Altamente nutritivo, contém baixo teor lipídico (gorduras) e elevada taxa de lactose. A porcentagem dessas substâncias os irmana. A primeira é a lisozima, proteína que destrói bactérias patogênicas; a outra, a lactoferrina, atua na absorção do ferro na nutrição infantil.

O jumento, burro ou asno – também conhecido por jegue, jerico e burro-choro, dependendo da região do Brasil –, pertence à família dos equinos, a mesma do cavalo, com o qual foi domesticado por volta de 5.000 anos a. C. É utilizado desde a pré-história para auxiliar nas tarefas agrícolas, como animal de carga, tração e montaria. Tem o porte médio, focinho e orelhas compridas, pelagem variada, sendo mais comum a marrom claro.

Dócil e inteligente, enfrenta a pouca água e a comida escassa, percorrendo longas distâncias em busca de ambas. Pode ser encontrado em todo o mundo, relacionado às mais diferentes situações, inclusive à tradição cultural. O Novo Testamento conta que José e Maria, levando o Menino Jesus no colo, fugiram do rei Herodes para o Egito no lombo de um burro; o fundador do cristianismo entrou solenemente em Jerusalém, como um rei, montado em um desses animais.

O jumento ainda foi importante na ocupação e exploração do Brasil, sobretudo do Nordeste, onde é encontrado em diferentes raças. Uma delas surgiu aqui e se chama pega (nome da ferragem com a qual se prendiam os pés dos escravos fugitivos). Não por acaso, segundo dados recentes do IBGE, existem no país cerca de 1,5 milhões de cabeças de asininos (dizem assim), aproximadamente 67% no Nordeste.

Grata surpresa: o Brasil talvez faça comercialmente queijo de jumenta. Investidores chineses e ingleses estiveram este ano em Felipe Guerra, município da Chapada do Apodi, no interior do Rio Grande do Norte. Negociaram a produção de leite com uma empresa que comprou 475 hectares de terra. As jumentas ficarão ali.

Será também um pequeno socorro para elas. Com a crescente perda da sua utilidade e a seca dos últimos anos, milhares de animais têm sido abandonados pelos donos e perambulam nas estradas do Nordeste. Em um ponto o futuro queijo potiguar rivalizará com o sérvio: custará caríssimo.

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