"A diferença é que antes não contávamos com a internet", diz historiador felipense

Artigo de Opinião do historiador Gleicigene Bezerra
Caros felipeguerenses, somos em nossa maioria de essência rural. Eu particularmente sinto orgulho disso. Em épocas em que o Rio Apodi/Mossoró ficava cheio e tínhamos que atravessá-lo para chegarmos a escola pagávamos ao senhor Raimundo Henrique, proprietário de uma canoa. Após descer da canoa a frase que mais se ouvia era: “seu Raimundo, hoje estou liso”. Aos estudantes que nunca tinha dinheiro o velho dizia: “meu filho quando seu pai colher o feijão você paga”. Alguns residentes em Tabuleiro e Boqueirão também viveram fato semelhante quando fizeram uso da canoa do popular Decor.

O verídico relato acima foi apenas para mostrar que os problemas de acesso à zona urbana em período de chuvas fortes assim como o rompimento da ponte (Boqueirão) não são pioneiros em nossa história. A diferença é que antes não contávamos com a internet, não cobrávamos e por isso éramos silenciosos e conformados com as dificuldades.

Hoje fico feliz ao abrir o facebook e ver diversos sujeitos reivindicando seus direitos. Isso me dar à certeza de que evoluímos, embora continuemos erroneamente dividindo a sociedade entre bicudos e bacuraus. Talvez tenhamos herdado da pátria mãe Apodi, o nosso hábito cultural de misturar política com politicagem.

O fato é que não podemos jamais admitir que nossos direitos sejam negados como foram antigamente. Apostamos em um novo gestor e os efeitos positivos vieram, mas precisamos continuar exigindo. O passado nos serve de lição. Nele nos comportamos como um povo omisso e permitimos que o município chegasse ao fundo do poço. Daqui pra frente, o povo jamais se conformará com seus direitos negados.

O próprio Etienne De La Boétie, ao escrever o “Discurso da servidão voluntária” ainda jovem e antes de perecer, nos disse que a tirania só existe quando ficamos de joelhos, ou seja, a tirania não é um ato de força ou violência de um homem, mas nasce do desejo de servir, e foi neste estado de serventia que Pedra de Abelhas permaneceu por muito tempo.

Também não precisamos digladiar nas redes sociais para discutir e entender o problema do rompimento da ponte do Boqueirão. Sua essência nos remete a um passado não muito distante. O próprio projeto é de fazer rir. Erguer um murro de concreto no meio de um rio com ambas as extremidades soltas foi um ato de insensatez, pra não dizer de esperteza.

Outro ponto que se precisa observar é que a ponte há muito precisava de atenção, mas o que priorizar diante de uma avalanche de problemas?


Gleicigene Bezerra

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