O poder embriaga e fascina, diz José Herval Sampaio Junior

O poder embriaga as autoridades e elas esquecem os propósitos de seus cargos - Por José Herval Sampaio Junior
O poder embriaga e fascina. Não precisamos nem conhecê-lo para saber o quão atrativo ele pode ser, mas o grande problema é possuí-lo, ou melhor, ser possuído por ele, pois tanta força ele tem, que muito dos valores preconizados pelos detentores, antes da ocupação do cargo, simplesmente deixam de existir.

Na política, muitas vezes as pessoas cometem atos ilícitos, antiéticos e até criminosos para ganharem um pouco de poder, além do que o povo já lhe passou por representação e fazem coisas inimagináveis para não o perderem. É aquela velha máxima popular, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço - ou que escrevo, poderíamos acrescentar.

Na política essa frase é mascarada, na politicagem é escancarada, tentando ludibriar o cidadão de bem, quando muito do que se fala é apenas jogo de cena. Atualmente, perderam o bom senso e querem por lei travar todo tipo de punição.

Entretanto, trazendo para uma perspectiva mais ampla, a do cidadão -como somos- cabe sempre a reflexão: e se eu tivesse as mesmas oportunidades de me beneficiar, de me corromper, será que eu faria diferente daquele político? Qual seria a sua resposta?

Bem verdade o que disse Jean-Jacques Rousseau: “O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe”. Sempre somos bons e honestos ao nos compararmos com outro, mas é quando a corrupção chega a nossa porta, é que devemos mostrar que nós devemos usar o poder para modificar o que está errado e trabalhar do jeito certo em prol da sociedade, e não sermos usados pelo poder.

Contudo, o que acontece na realidade, é que quando a possibilidade de corromper chega, muitas pessoas não pensam duas vezes em tirar proveito da situação. Como diz o velho ditado, a ocasião faz o ladrão, basta ver o que aconteceu no Espírito Santo, com a polícia militar em greve: populares saqueando lojas e levando os produtos para casa. Então quem são os bandidos?

Portanto, por mais que o poder no sentido mais amplo do termo seja mais exercido por quem ocupa os cargos estatais e quem tem dinheiro, nós cidadãos, verdadeiros detentores de todo o poder, também não o exercemos como deveria ser e o que mais sabemos é reclamar, transferindo a responsabilidade das coisas para terceiros, sem olhar para o nosso umbigo como se diz.

Na maioria das vezes, o cidadão só precisa de uma oportunidade para se corromper, e quando ele alcança o poder, não quer mais abrir mão dele. Mas já abriu dos seus princípios e valores. Essa estrutura de poder pelo poder, satisfazendo interesses privados e antirrepublicanos, sem nenhuma preocupação com os fins sociais, não pode ser mais tolerada.

Os valores objetivos previstos na Carta Magna e nas leis devem ser cumpridos rigorosamente por todos, deixando de lado essa mania de encontrar brechas para fugir do que é melhor para a comunidade e não para si.

É bem verdade que o desejo de usufruir de benefícios, as facilidades proporcionadas pelo poder e o bem-estar em alcançar interesses próprios fazem com que o ser humano muitas vezes ultrapasse o limite da ética, da honestidade e da legalidade.

E o pior, às vezes, esse ultrapassar do limite para se atingir aos objetivos não republicanos perdeu o bom senso que se tinha antes em relação à cerimônia dos atos ilícitos. Hodiernamente, se age como se fosse normal, ou seja, as pessoas perderam totalmente a noção do razoável, já que os fins justificam os meios.

Vivemos, realmente, tempos estranhos no Brasil. Uma crise institucional e uma grave instabilidade política que coloca em xeque todo o trabalho de luta de uma república democrática e sadia, que mesmo jovem evoluiu bem nos últimos anos, mas que pode sucumbir tamanha a “cara de pau” de algumas autoridades e pessoas que desejam chegar ao poder e para tal não medem esforços.

Eu mesmo não posso negar a ninguém, quero chegar ao topo de minha carreira, mas desde já aviso que não negociarei nunca com meus valores e se eu tiver que fazê-lo para chegar a cargos mais altos, já sou muito feliz com o que tenho e continuarei como juiz de primeiro grau e cidadão exercendo a minha luta por uma sociedade melhor em que o poder é coletivo e este só tem legitimidade quando exercido para satisfação social e nunca individual.

O problema é que o “danado do poder” realmente embriaga e peço a Deus que nunca me deixe viciado no mesmo e que eu seja mais fiscalizado do que os outros, pois tenho a ousadia de expor minhas convicções e lutar contra todo tipo de abuso de poder, logo o homem não pode viver de palavras e sim de ações.

O Ministro da Suprema Corte, Marco Aurélio Melo, uma vez em uma palestra proferiu as seguintes:

A segurança jurídica é a espinha dorsal da sociedade. Sem ela, há sobressaltos, solavancos, intranquilidade maior. O regime democrático a pressupõe. A paz social respalda-se na confiança mútua e, mais do que isso — em proveito de todos, do bem comum —, no respeito a direitos e obrigações estabelecidos, não se mostrando consentâneo com a vida gregária, com o convívio civilizado, ignorar o pacto social, fazendo-o a partir do critério de plantão.

Mas, infelizmente, o que vivemos no Brasil hoje é uma triste realidade de insegurança jurídica, de desrespeito às normas, uma triste realidade de gente que passa por cima da moral, da ética e do bom senso, dos seus próprios valores e princípios para chegar, se articular e conseguir permanecer no poder junto a seus aliados.

A aliança deveria ser em prol da coletividade, mas não se restringe aos seus componentes que se fecham para conseguirem seus objetivos espúrios e acham ainda que todo mundo é idiota. Sinceramente, essas ações e omissões desafiam a nossa inteligência!

E tudo é feito para que e por quê? Para tentar se esquivar de ser investigado, condenado e punido por seus crimes contra a Administração pública. É assim que um grupo relativamente pequeno de governantes e seus aliados destroem um Estado Constitucional Democrático de Direito.

Os exemplos que vemos todos os dias de irrelevância da supremacia do interesse público sobre o privado foi que nos levou ao estágio atual. Sempre concordamos em ceder um pouquinho justamente porque por trás dessa cessão existe um interesse individual subjacente.

E é justamente esse interesse escuso e implícito que nos move a agir mais e mais para continuidade do poder, porque a força que o mesmo exerce sobre nós é inigualável, ao ponto inclusive de sequer percebemos o quanto ele é sedutor, pois muitas pessoas agem como republicanos no papel e neste cabe tudo para materialização desse interesse.

Não quero aqui mencionar nenhum caso concreto, mas tenho certeza que todos os leitores nesse exato momento ligam esse texto a situações pontuais que se repetem dia a dia em seu Município, Estado e no Brasil todo, porque é assim que vamos construindo a nossa democracia, evoluindo por fora e totalmente corroída por dentro.

Finalizo esse pequeno texto dizendo que não quero ser melhor que ninguém ao dizer de modo tão claro o que acontece nas entranhas de nossa república, mas quero deixar para meus filhos e netos o legado de que mesmo sendo regra geral no Brasil essas ações, existem pessoas que não compactuam com nada disso e além de denunciarem por onde passam e agem no seu dia a dia contra tudo isso.

E quem sabe com esses pequenos exemplos, possamos convencer dia a dia mais pessoas a se aliarem agora aos interesses coletivos, deixando de lado os individuais, pois estes são efêmeros e quando passam nos deixam um vazio que nunca poderá ser preenchido justamente porque a vida em sociedade só tem razão de ser quando todos podem se satisfazer.

Mais uma vez repito, com a palavra a Cidadania que precisa ser exercida com a mesma ousadia dos que hoje exercem o poder pelo poder!

Texto publicado no Site Novo Eleitoral.
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