Descaso com a agricultura em Felipe Guerra

Na Lei Orçamentária Anual (LOA-2018), enviada pelo Poder Executivo Municipal à Câmara, apenas R$ 380 mil foram alocados para a agricultura do município, num orçamento de quase R$ 28 milhões de reais. A LOA ainda não foi votada na Câmara.

O investimento alocados para a agricultura em relação ao ano em curso caíram pela metade, onde foram alocados para o setor em 2017 pouco mais de R$ 700 mil e mesmo assim, as ações são imperceptíveis. "Não podemos aceitar que o investimento para o próximo ano seja reduzido pela metade, quando a necessidade é de ampliação e há condições", disse Erinaldo Silva em sua coluna Pinga Fogo.

Ainda em sua coluna, Erinaldo expôs seu conhecimento da história da agricultura em Felipe Guerra, bem como de sua importância, e afirma que praticamente nada foi feito durante os 6 anos do atual prefeito Haroldo Ferreira e que nos últimos 20 anos, o enfrentamento dos problemas do setor agrícola, é sempre o mesmo: paliativismo. Nenhuma política pública eficiente de enfrentamento a problemática foi implementada até hoje no município.

Confira na íntegra:

Sou filho de agricultores e vivi os primeiros 19 anos da minha vida no campo. Mais precisamente na fazenda Canto do Junco, ao lado da comunidade do Brejo, terras que na época pertenciam ao meu tio-avô, ex-vice-prefeito e maior agropecuarista da história de Felipe Guerra, José da Silva o ‘Badinho’.

Me criei em meio a fartura de grãos, frutas e legumes, ainda orgânicos, contemplando a retirada de toneladas de alimentos que eram exportados para as mais diversas regiões do Brasil, atividade que gerava centenas de empregos e aquecia a economia local.

Naquela época, anos 80 e 90, havia água em abundância na região do Brejo, de forma que bastava os produtores administrá-la para terem as condições de produzir de janeiro a janeiro.

As famílias do campo eram mais felizes que nos dias atuais, pois tinham dignidade. Produziam no campo o sustento e não precisavam humilhar-se a políticos ou governo algum. As políticas públicas praticamente não chegavam ao campo e, mesmo assim, ninguém reclamava.

A partir dos anos 2000 a realidade começou a mudar. Os anos invernosos deram lugar a sucessivas secas, de forma que os mananciais foram secando e o homem do campo perdendo a capacidade de produzir. Se fizeram necessárias políticas públicas que não vieram e iniciou-se então o êxodo rural.

Minha família foi uma das muitas que tiveram que deixar o campo e vir morar na zona urbana, em casas alugadas. Algumas famílias passaram a ter como renda uma aposentadoria, enquanto outras, renda alguma. Chegara um socorro: os programas sociais do governo federal.

De uma realidade de fartura no campo à uma vida com recursos limitadíssimos na zona urbana, a mudança foi muito cruel para tais famílias. Crianças, adolescentes e jovens buscaram às escolas, mesmo sem qualquer perspectiva de emprego. Homens adultos, analfabetos ou semi-analfabetos, buscaram outros tipos de atividades. Mulheres adultas, de mesma escolaridade, limitaram-se a cuidar de seus novos lares. Muitos idosos ficaram depressivos, pois não havia mais com que distrair suas mentes.

Assisti tudo isso. Vivi no contexto. Passei alguns anos buscando respostas para perguntas do tipo: Por que teve que ser assim? Não havia uma forma de salvarmos a atividade agrícola, evitando o êxodo rural e o sofrimento dessas famílias na zona urbana?

A maturidade veio e com ela as respostas para cada pergunta: Foi assim devido ao total descompromisso dos governos municiais da época com a necessidade de salvamento da atividade agrícola do município, fundamental para o desenvolvimento econômico.

A fertilidade de nossas terras permanece a mesma. Os anos de seca foram usados como desculpa de quem nunca teve verdadeiro compromisso com as famílias do campo. Nosso solo é riquíssimo em água e o acesso a ela pode ser restabelecido através de perfuração de poços de alta vasão e instalação de bombas de alta sucção. O alto custo da energia elétrica, que inviabiliza a agricultura irrigada, pode ser vencido com o uso de sistemas de energia fotovoltaica (energia solar). O cooperativismo pode ser implementado através de ofertas de crédito e de acompanhamento técnico.

Ao longo dos últimos 20 anos em que acompanho o descaso com nossas famílias do campo, vi iniciar-se e findar-se governos, os quais seus modus operandi em relação ao enfrentamento dos problemas do setor agrícola, é sempre o mesmo: paliativismo. Nenhuma política pública eficiente de enfrentamento a problemática foi implementada até hoje no município.

Conhecedor da história da agricultura em Felipe Guerra, bem como de sua importância, sabedor de tudo que pôde, pode, mas que não é feito para mudar a realidade, desde 2013 venho na cola do atual prefeito Haroldo Ferreira cobrando políticas públicas nesse sentido, modéstia à parte até orientando-o, mas infelizmente, devo aqui de público dizer: entra num ouvido e sai no outro.

Já se passaram quase 6 anos do atual governo municipal. Neste período, dezenas de milhões de reais já entraram e saíram das contas da prefeitura e, diante da real necessidade, considerando a total viabilidade seja logística ou econômica, devo aqui publicamente lamentar e dizer: praticamente nada foi feito.

A falta de compromisso do atual governo se revela na não priorização dessa causa. Prova disso é que hoje tomei conhecimento de um fato que me deixou indignado. Na Lei Orçamentária Anual (LOA-2018), enviada pelo Poder Executivo Municipal à Câmara, apenas R$ 380 mil foram alocados para a agricultura do município, num orçamento de quase R$ 28 milhões de reais.

Tal fato é inadmissível para quem defende com total convicção essa área, e mais ainda para quem precisa dela para sobreviver. A LOA ainda não foi votada na Câmara. Há tempo para que o Governo Municipal reveja esse absurdo. Os vereadores que dizem defender o setor rural, bem como as entidades representativas desse setor, tem o DEVER de não aceitar tamanho descaso.

Para esse ano foram alocados para o setor pouco mais de R$ 700 mil e as ações são imperceptíveis. Não podemos aceitar que o investimento para o próximo ano seja reduzido pela metade, quando a necessidade é de ampliação e há condições.

Erinaldo Silva - Pinga Foto
Fonte: Rede News 360

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.